Era uma noite de sonhos ruins, mas a curiosidade do escritor pode ser mais assustadora do que o pior dos pesadelos!
Acordei me perguntando porque a minha cama estava no meio de uma pequena ilha de pedra, que flutuava em um mar feito águas negras mais fedidas do que bueiro de esgoto em um dia quente de verão.
— Isto aqui não é muito normal… — Disse, para ninguém além da minha pessoa.
— Você não faz ideia do que significa ser normal, pequeno mortal! — Uma voz horripilante me respondeu e tomei um susto tão grande que quase pulei na água.
Meu interlocutor era uma figura esquelética (literalmente!), vestida em um manto escuro. A caveira segurava uma foice flamejante em uma mão e uma coleira na outra.
Preso na coleira, um Dragão colossal sorria para mim com dentes de navalha. Mesmo aterrorizado eu só conseguia me perguntar como uma coleira tão pequena podia prender um bicho daquele tamanho.
E foi aí que me toquei. Eu não estava acordado, não mesmo, aquilo era apenas um sonho ruim e esquisito.
Como escritor, me vi obrigado a aproveitar a situação.
— Nossa! Minha imaginação deve estar a mil! Olha só os detalhes no visual de vocês!
Me aproximei da caveira e do dragão e acho que minha empolgação os deixou desconfortáveis porque o dragão rugiu e seu dono tentou me fatiar com sua foice.
— PARA TRÁS, MORTAL! COMO OUSA TENTAR TOCAR NO DRAGÃO QUE COME UNIVERSOS? — A caveira disse em um tom que eu só atribuiria a um poderoso vilão. — FAZ IDEIA DE QUEM EU SOU?
Eu me sentei e peguei meu pequeno caderno de anotações. Ele estava no bolso da minha calça, é claro.
— Não faço a menor ideia, meu amigo. — Respondi. — Mas me conte tudo, não poupe nenhum detalhe. Vou iniciar a sua ficha de personagem agora mesmo. Quem sabe não possa te encaixar no conto que preciso entregar no mês que vem…
Uma ventania causada pelo bater de asas do dragão que come universos quase me fez sair voando.
— Calma ai, meu amigo alado! Eu também vou fazer uma ficha sua! — Reclamei. — Não sou muito chegado a histórias de fantasia medieval, mas posso abrir uma exceção no seu caso. Agora, me diz, ao comer universos… você os tempera com alguma coisa ou apenas… sei lá, come sem nem cozinhar?
A caveira olhou bem fundo nos meus olhos.
— Você é um mortal muito esquisito. — Declarou e então pulou nas costas de seu dragão. — Vamos embora daqui, Devorador de universos! Vamos para longe deste… Deste… MONSTRO E DE SUAS PERGUNTAS INCONVENIENTES!
Os dois voaram para longe de mim e o rabo do dragão bateu no chão antes de se afastar, destruindo minha pequena ilha.
Cai no mar negro e dei de cara com o chão. O barulho estridente do meu despertador era a única coisa que consegui ouvir ao ficar de pé.
— Puxa vida, eles nem me deram uma ideia do background deles. — Resmunguei. — Bom, acho que vou ter que inventar tudo do zero. Ser escritor não é fácil…
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