A jornada do Graal

Sir Klaus ouviu seus inimigos antes de vê-los e soube, sem dúvida alguma, que não tinha como evitar o conflito.

Ele não desejava aquela luta, mas seus irmãos não lhe deixavam escolha.

Eles tinham sua missão e ele tinha a dele.

Na pequena estrada de terra e lama dois cavaleiros de armadura completa surgiram à sua frente e um homem a pé, segurando um arco e flecha, lhe cortou o caminho de volta.

— Calma, Hylas. — Ele sussurrou perto do ouvido de sua montaria, o acariciando no pescoço para acalmá-lo. — Deixe que venham até nós, não tenho pressa para derramar o sangue de meus irmãos.

Desembainhando sua espada e posicionando seu escudo, Sir Klaus esperou. Os cavaleiros iniciaram o combate, incitando os cavalos para uma carga letal. Um erro, já que o terreno era escorregadio e traiçoeiro. Aqueles deviam ser novatos ávidos por glória. Atrás de Sir Klaus, uma flecha cantou pelo ar. Escudo erguido, ele bloqueou o projétil. A força do impacto poderia ter desequilibrado alguém não familiarizado com a eficácia do arco longo, o que não era seu caso.

Um dos cavaleiros quase foi ao chão quando seu cavalo pisou em falso, mas sua habilidade o salvou do pior. O outro conseguiu se aproximar por pura sorte.

— Morra, traídor! — Sua espada subiu, buscando a cabeça de Sir Klaus em um ataque com muita força e pouca habilidade.

Se inclinando na cela no último segundo, Sir Klaus desviou da lâmina e projetou sua espada para frente. Um encaixe perfeito por baixo do elmo de seu inimigo fez sangue jorrar. Homem e cavalo seguiram em frente, mas apenas um com vida.

O segundo cavaleiro foi mais esperto e apenas jogou seu cavalo para cima dele. Treinado, o animal ergueu as patas dianteiras e um coice acertou o escudo de Sir Klaus com força esmagadora. O impacto o arremessou contra a lama. Dor e sangue nublaram Sir Klaus por breves segundos, mesmo assim ele se colocou de pé e estocou com sua espada contra a cabeça do cavalo de seu oponente, o aço se enterrou com precisão no olho e fez a criatura correr para longe, levando seu cavaleiro e as pragas que ele cuspia.

Duas flechas passaram muito perto de Sir Klaus e uma terceira parou mais uma vez em seu escudo, agora esmagado e praticamente inútil. Ele se preparou para correr até o arqueiro, mas uma lança arremessada da floresta derrubou o homem antes que ele pudesse se mover. Flechas e lanças, também vindas da floresta, deram cabo do cavaleiro que tentava recuperar o controle de seu cavalo ferido.

— Um cavaleiro que mata cavaleiros? — Uma voz feminina, de alguém que deixava a cobertura da floresta, chamou por Sir Klaus. — Saiba que apenas nossa curiosidade o mantêm vivo. Quem é você e o que o fez perder o juízo ao ponto de atravessar o muralha dos romanos?

A mulher era alta, corpo de guerreira coberto por panos pesados e apropriados para o frio do norte, cabelos negros e trançados. Seus olhos castanhos analisavam Sir Klaus em busca de uma resposta.

Ele sabia que além da muralha de Adriano as terras eram tomadas pelos “selvagens”, o povo que era dono das terras que hoje os cavaleiros e a igreja clamavam de sua.

Retirando uma taça de ferro puro que trazia presa ao seu cinto da espada, Sir Klaus respondeu.

— Reconhece isto? — Perguntou.

O brilho nos olhos da mulher e dos outros que a acompanhavam, que agora deixavam seus esconderijos, deu a resposta a ele. Sem esperar por outra reação, Sir Klaus continuou a falar.

— Do nosso lado da muralha o chamam de Santo Graal, mas eu o reconheço pelo que é. Um erro, uma afronta aos verdadeiros deuses desta ilha. O que sobrou do caldeirão de Cerridwen. Foi um cavaleiro quem o roubou da terra do povo gentil e eu sou o cavaleiro que irá devolve-lo. Peço permissão do seu povo para que eu possa cumprir a minha missão.

— E porque você acha que vamos ajudá-lo? — A mulher perguntou, a lança em sua mão preparada para a luta.

— Porque vocês sabem que novos invasores se aproximam da Bretanha. Inimigos que Artur e nem nenhum cavaleiro pode derrotar sem a benção dos Gentis. Porque eu preciso corrigir um erro do passado e porque Avalon deve retornar ao mundo. Agora, me mate ou me ajude, a decisão é sua.

A mulher abaixou sua lança e seus aliados também. Com um olhar firme e ameaçador, ela respondeu.

— Venha conosco, sua jornada está apenas começando cavaleiro.


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