Kaleb, o guerreiro, xingou todos os deuses que conhecia enquanto tentava se libertar da gosma rosa e fedorenta que a larva gigante cuspira nele. Aquela coisa o prendera na parede da masmorra e, agora, ele havia se tornado um lanche fácil para o monstro.
— AAAAArrrrrgghhh!!!! — O grito de um esqueleto vestido com uma armadura velha chamou a atenção da larva e do guerreiro.
O esqueleto brandia uma espada enferrujada e tinha um escudo de madeira velho pendurado no braço esquerdo.
— PARA LONGE, VERME! — A caveira bateu no monstro com seu escudo e perfurou um de seus olhos com a espada.
Milagrosamente, a criatura fugiu e deixou Kaleb sozinho com o esqueleto.
— Ah, que legal. Agora, em vez de lanche de verme, eu vou ser morto por um esqueleto? Isso é simplesmente incrível! — o guerreiro lamentou sua sina.
O esqueleto lhe deu atenção. Retirou o elmo velho do crânio e fez algo esquisito com a boca. Kaleb, incrédulo, imaginou que aquilo era a tentativa de um sorriso.
— Não vim para ser seu algoz, jovem guerreiro. Procuro, sim, sua estimada ajuda! — a caveira disse, e depois executou uma pose formal de apresentação. — Sou Sir Hershell de Vanvaquat! E preciso dos serviços de um herói!
— Como é?
— Permita que eu verse sobre minha proposta. Tudo começou quando meu feudo foi incendiado por um monstro! — Hershell começou sua história. — Eu estava com a bela dama, Beatrice Loubant, na ocasião, e minha paciência já ia curta com o péssimo serviço de quarto.
Kaleb piscou os olhos, tentando entender o que lhe era dito.
— Espera, seu feudo estava em chamas e você reclamava do serviço de quarto?
— Ora, eles já demoravam horas com o meu pedido. Mas você está certo, isso não é a parte importante.
— Sim, creio que não. O que importa era o…
— O FEITICEIRO QUE CHEGOU ATÉ NÓS ANTES MESMO DO SERVIÇO DE QUARTO! INACREDITÁVEL!
— Espera, de onde saiu o feiticeiro?
— Ora, um patife sem tamanho que me perseguia há anos. Me acusava de ter roubado seu elemental do ar. Mas voltemos ao incêndio! Eu tentei correr para longe de tudo, mas meu nêmesis não me dava folga. Logo mais me vi preso por…
— CALMA AÍ! — Kaleb berrou. — O problema era o incêndio ou o feiticeiro? Ele botou fogo no feudo?
— O quê? Não seja absurdo. O fogo foi culpa de Beatrice. Entenda, em meio à confusão, eu lhe disse: “Minha amada Joana, vá para casa enquanto eu lido com meu inimigo mortal!”
— Quem diabos é Joana?
— Justamente o que Beatrice me perguntou. Logo antes de invocar os PODERES DAS CHAMAS INFERNAIS DOS MIL SÓIS!
Kaleb suspirou, derrotado.
— Devo supor que ela também era algum tipo de feiticeira? — perguntou.
Hershell gritou e pulou, muito animado, no lugar.
— Ah, ela era, sim! A mais poderosa de todo o sul do reino! Infelizmente, eu não conseguia me lembrar quem era Joana, e ela não ficou muito feliz com essa resposta… Entenda, é difícil pensar quando alguém está te acusando de roubar um elemental do ar.
— Ok, então vamos tentar resumir… Tinha esse feiticeiro que te acusou de roubo e também uma poderosa feiticeira que colocou fogo no feudo. E como diabos você saiu de lá?
— Voando, é claro — Hershell respondeu. — Meu fiel elemental do ar me tirou de lá bem a tempo. Mas não rápido o suficiente; alguém me acertou um raio mágico nas costas durante minha GLORIOSA RETIRADA ESTRATÉGICA.
— Sei… Seu elemental do ar. E como chegamos até aqui? — Kaleb quis saber.
Hershell olhou para o chão, como que para organizar suas memórias bizarras.
— Oras, isso eu não sei. Quando acordei, percebi que havia sido transformado em um esqueleto! Procurei ajuda em vilarejos próximos, mas, ao me verem, todos me julgam como um monstro irracional. Por isso, preciso da ajuda de um herói que possa enxergar além dos preconceitos!
Kaleb já estava cansado daquela história sem pé nem cabeça, mas, se ajudar aquele esqueleto louco era o preço para se ver livre da gosma fedorenta que o prendia na parede, ele o pagaria feliz.
— Beleza, então, Hershell. Digamos que eu acredite em você…
Hershell fez uma expressão muito ofendida, até onde isso é possível para um esqueleto.
— Acha que estou mentindo? Acha mesmo que, se eu fosse inventar uma história, iria me dar um nome tão ridículo quanto “Hershell”?
— Bom… Isso lá faz algum sentido — Kaleb admitiu. — Então eu vou ajudá-lo. Mas antes, corte esta gosma e me liberte.
Hershell sentou no chão.
— Cortar a gosma do VERME DO ABISMO ESTRELADO? Isso é impossível. Teremos que esperar que ela derreta sozinha, e depois poderemos empreender nossa AVENTURA ÉPICA!
— E de quanto tempo estamos falando? Quanto tempo até a gosma derreter?
— Para nossa sorte, aquele era um verme filhote. Uns mil e um anos devem bastar. Com uma margem de erro de dois meses, para mais ou para menos. Você está com tempo, certo? — Hershell respondeu, e então começou a contar mais uma história de sua vida. — Deixe-me contar sobre a vez em que roubei o elemental do ar de um feiticeiro do norte e…
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