Debaixo da escada do porão, um pequeno portal de cor azul espectral se abriu. Gaux passou por ele, ainda mancando. O ferimento em sua pata direita traseira o incomodava muito e o gato de guerra rezou para a falecida deusa Bast para que a infecção não lhe custasse a perna.
— Seja bem-vindo ao meu território, gato guerreiro. — Outro gato, este de pelos negros que contrastavam com os brancos de Gaux, falou e se aproximou. — Sou lorde Nott, dos campos do novo mundo.
— Novo mundo? — Gaux disse e então cheirou o ar. Seu olfato aguçado captou a poluição da cidade e também de outras coisas que se escondiam no porão daquela casa. — Em que ano estou e como os humanos se referem a este campo?
— O ano, pela nossa contagem, é o 3000 após a quebra do tecido divino. Pela contagem dos humanos estamos no ano de 2019. Hoje eles chamam este campo de Estados Unidos. — Nott respondeu e então deitou sob suas patas. Seus olhos dourados encaravam os azuis de Gaux.
O gato guerreiro ficou em silêncio, pensando e analisando.
— Falta pouco para o começo da pandemia. — Disse, por fim. — Algum progresso quanto ao modo como os humanos conseguiram destruir a barreira que separa os mundos?
Nott abaixou a cabeça, envergonhado.
— Temos algumas pistas, mas ainda estamos longe de uma conclusão.
— Sugiro que acelerem suas investigações. — Gaux o repreendeu. — Não vamos aguentar muito mais. Trouxe algo que talvez possa ajudá-los.
Então, depois de tossir diversas vezes, cuspiu uma bola de pelos para fora da boca. Diante do gato negro, uma mistura de saliva e pelos brancos escondia uma pequena esfera verde-esmeralda. Os olhos dourados de Nott quase pularam para fora de sua face.
— Isso é o que acho que é?
— Um cristal de magia primordial retirada diretamente de Atlântida. — Disse Gaux. — Use o poder com sabedoria, creio que este deva ser o último que sobrou no mundo.
— Pode confiar em mim, gato guerreiro, vou garantir que tenhamos sucesso. Os humanos não vão destruir a barreira dos mundos. Juro sob as três vidas que me restam.
— Jure apenas sob duas vidas. — Gaux respondeu, — Preciso que me dê uma de suas vidas, tenho apenas esta e não acredito que vá durar muito.
Nott engoliu em seco, mas não questionou a ordem recebida. Os dois gatos entrelaçaram seus rabos e a energia vital de um passou para o outro em uma fração de segundos. Estava feito. Os olhos azuis de Gaux brilharam com energia renovada e, sem mais nenhuma palavra, o gato guerreiro atravessou o portal e desapareceu. Segundos depois o próprio portal se desfez e não deixou sinal de sua existência.
Nott ficou onde estava, encarando a escuridão debaixo do porão da casa. Quando a porta no topo das escadas se abriu o humano que se julgava seu dono esticou a cabeça para poder ver o que acontecia no aposento e então fixou seu olhar nele.
— O que você faz aí, Henry? Vem amigo, sobe! — Chamou por ele, usando o nome idiota que lhe atribuira.
Nott encarou seu humano com preguiça e tédio.
— Vamos logo, Henry! Não tenho tempo para perder! — O humano voltou a implorar.
Aquela afirmação quase fez Nott rir. Pelo menos daquela vez o humano tinha razão. Eles não tinham mesmo tempo para perder. Só que as preocupações do humano eram infinitamente menores quando comparadas as coisas que roubavam o sono dos gatos ao redor do mundo.
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