Eu já estava há quase uma semana procurando trabalho. Não, não é muito fácil conseguir um quando se carrega o estigma de ser um ex-presidiário. Então, quando recebi um e-mail me oferecendo uma entrevista em uma agência chamada E&L Associados, eu não fiz muita questão de tentar desvendar o que esses caras faziam.
Não era hora de ser seletivo, minha vida acumulava problemas demais para me dar ao luxo. Meu aluguel ia vencer, minha mãe estava doente, minha geladeira estava fazendo barulhos muito estranhos e o meu único par de tênis parecia pronto para aposentadoria. Eu precisava de dinheiro e essa agência podia me dar um trabalho. Foi só com o que me importei no momento.
Olhando para trás, eu deveria ter me importado um pouco mais.
O endereço que recebi me levou a um pequeno prédio comercial de cinco andares no meio da quinta avenida. Achei isso estranho por dois motivos: cercado de arranha-céus de luxo, ele não parecia pertencer à quinta avenida. Ninguém entrava ou saia do prédio, quase como se ele não estivesse realmente lá. O segundo motivo era o sujeito de terno amarelo, cabelos brancos espetados e olhos violeta que estava de pé ao lado da única entrada. Ele sorriu para mim e abriu a porta quando me aproximei.
— Porteiro esquisito… — Comentei comigo mesmo e olhei para trás para me certificar de que o homem ainda estava lá fora.
Ele não estava.
— Veio para vaga de agente externo? — A voz de uma garota me fez olhar para frente de novo e quase pulei de susto.
Normalmente sou uma pessoa atenta, mas eu nem ao menos escutei um passo dela. No saguão do prédio só tinha uma porta, que eu imaginava ser o acesso das escadas, e um elevador. A porta estava bem do meu lado e eu tinha certeza de não ter escutado ela abrir e o painel do elevador, se estivesse correto, informava que ele estava no décimo quinto andar.
Sim, eu sei que disse que o prédio só tinha cinco andares. Acredite, fiquei bem confuso e só fui me perguntar como isso era possível horas depois quando tudo já tinha ido para merda.
— Eu acho que sim, o e-mail que recebi não deu detalhes sobre o trabalho. — Respondi, antes que a moça achasse que eu a estava ignorando.
Seria impossível ignorá-la. Ela parecia ter algo na casa dos vinte e poucos anos, seus cabelos longos estavam tingidos de roxo e azul, vestia calças jeans rasgadas nos joelhos, botas pretas de motociclista e uma regata preta com a estampa de caveiras com asas de borboletas. Seus braços e o pescoço tinham tantas tatuagens que fiquei um bom tempo perdido nelas e só me dei conta do quão pálida ela era quando mudei meu foco para seu rosto.
— Você tem cara de agente externo, acho que vai se dar bem na agência. — Ela disse e então seguiu seu caminho para a rua.
— Obrigado… — Comecei a dizer, então ela olhou por cima do ombro e me calei quando vi seus olhos azuis mudarem rapidamente de cor, indo do azul para vermelho, amarelo, verde e depois azul de novo.
— A entrevista é no terceiro andar, não desça em qualquer outro andar que não esse e boa sorte! — Ela saiu, jogou uma moeda para o alto, coisa que achei peculiar, e foi embora sem nem ao menos esperar ela cair de volta.
A moeda não caiu no chão.
O elevador apitou quando voltou ao térreo e decidi que era melhor ir para minha entrevista.
O cara que me entrevistou disse que se chamava Lucca Van Helsing, juro que quase ri na cara dele. Lucca gostou do meu currículo (que não tinha nada de especial) e uma das perguntas que me fez foi sobre meu tempo na prisão.
Mentir não ia ser bom, então contei que acabei preso por bater tanto em um cara em um bar que ele acabou passando meses no hospital. O fato da vítima ser um neo-nazista era apenas um detalhe.
Normalmente sou uma pessoa calma, mas aquele branquelo me tirou do sério de tal maneira que foram precisos sete policiais para me tirar de cima dele. Sim, sou calmo, mas não pise no meu calo. Se entro em uma briga é porque a coisa vai ficar realmente feia para alguém.
— Ótimo, você é durão, isso vai ser bom. — Lucca disse e me aprovou.
— Mas é só isso? — Perguntei, confuso. — Você não quer saber nada sobre minha experiência profissional, recomendações… mais nada?
— Nada que tenha feito antes na sua vida vai te ajudar neste trabalho, acredite em mim. — Ele riu e então pegou algo dentro da gaveta de sua mesa. — Mas realmente tem outra pergunta que eu deveria fazer. Só para questões de registro, este aqui é o sujeito com quem você brigou no bar?
Ele me mostrou uma foto velha e amassada. Nela pude ver a cara do homem que me valeu uma temporada na prisão. Só que tinha algo diferente naquela foto. As orelhas dele eram enormes e pontudas. Além disso, os olhos dele eram vermelhos e ele parecia muito mais branco do que eu me lembrava. Estou falando de branco de verdade, quase como se a pele dele fosse feita de giz.
— Como você…? Que tipo de agência é esta? — Fiquei de pé e me afastei da mesa.
Lucca me encarou.
— Fique tranquilo, ninguém aqui vai te julgar por quebrar a cara de um elfo xenofóbico. E, respondendo sua segunda pergunta, esta é a Exterminadores & Lendários associados. Somos caçadores de lendas que não caminham dentro das regras.
Não gostei da resposta e gostei ainda menos dos detalhes que Lucca resolveu me dar depois.
Segundo ele, monstros mitológicos eram reais e sua agência cuidava da “limpeza” daqueles que causavam muitos problemas para os humanos. Ele comentou alguma coisa sobre todos eles serem exilados do mundo das lendas porque alguém chamado Oberon resolveu fechar os portais entre os mundos sem avisar ninguém.
Não faço ideia do que me fez ficar de pé naquela sala escutando a história doida dele, mas por algum motivo eu não fui embora. Quando Lucca acabou de falar, eu ri de verdade, mas engoli o riso quando um lobisomem vestindo terno e gravata entrou na sala.
— E aí, o recruta está pronto? Temos um BH78 nas docas. — O homem lobo falou e deu um tapa amigável no meu ombro.
Meu choque com aquela cena foi tamanho que eu sequer cogitei a ideia de gritar e sair correndo pela minha vida.
Lucca sorriu para mim e vi presas afiadas na sua boca.
— E aí, está pronto?
Pensei em sair de lá, de verdade, mas aí me mostraram o valor do meu cheque de pagamento.
Tudo o que eu tinha visto até ali era loucura, insano, impossível… mas aquele cheque tinha tantos zeros depois do número cinco que a única resposta que consegui dar foi:
— Eu nasci pronto.
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